Friday, November 24, 2006

o quê? sou eu...seu lado direito...


Àquela altura ele queria mais era que se fodessem seus tímpanos e retina. Os gritos e distorções do Ludicra foram postos no volume máximo e as palavras se se embaralhavam com a oscilação do ônibus estupidamente abarrotado. Trajeto diário, cruzando a cidade cada dia mais insuportavelmente caótica, tendo sempre nos papéis ou no headphone a companhia em meio a multidão solitária. Antônio Carlos Magalhães, Tancredo Neves, Luís Eduardo Magalhães. As homenagens em forma de concreto e asfalto o fazem odiar ainda mais estes nomes.
Mas apenas algumas páginas são necessárias para levá-lo para as proximidades de um pântano pouco antes do Texas, dentro de um carro, acompanhado por dois loucos pela vida e uma garota bela e igualmente disposta. Todos transbordando de vontade, assim como ele e também não entendem nada que se relacione a 'futuro promissor'. Sente o êxtase e a tensão causada pelo medo do desconhecido e compartilha do prazer de se encontrar. Apenas alguns minutos, que talvez tenham lhe representado a dança daquele dia difícil e fugaz, mas que ele não se permitia que fosse perdido.
E a mente turbilha, sempre "inquieta como um redemoinho". Pipocando idéias, planos a curto prazo e duelando com o corpo exausto, que reclamava como um velho chato ao ouvir as ordens dos dias seguintes. Quase sempre preenchidos.
A lista de nomes alunos nas costas da camisa de terceiro ano da garota ao seu lado lhe remete a tempos passados. Mais ou menos quatro anos se passaram. A fugacidade do tempo sempre lhe assusta e, por vezes, chega a entristecê-lo. Sim, realmente tudo era bem mais simples. E por alguns instantes a sensação da falta lhe vem. Como um lampejo vem, e da mesma forma vai. Não há tempo pra perder com nada disso.
Sim, pode cair e quem sabe até esteja caindo agora. mas se orgulha ao saber que a angústia vai ser vencida sem precisar ir contra suas leis, trair a si mesmo, buscar vida em coisas mortas. Essa noite vai dormir com vontade de destruir tudo, de jogar tudo pro alto, de "pôr fogo no louvre e limpar a bunda com a Monalisa". Mas agora sabe da imensa possibilidade de acordar no dia seguinte e esboçar um grande e sincero sorriso pra tudo que tirou seu sono na noite anterior e se render a mais um dia cheio de vontades possibilidades.

Thursday, November 02, 2006

pouca coisa: um skate e uma estrada


A necessidade de viajar vem se mostrando mais forte a cada dia. Dormindo 5hs por noite, tendo os fins de semana cada vez mais apertados entre o mundo de coisas que se deve fazer e o mundo que se deseja, acumulando algumas dores de coluna e umas doses diárias de indignação. Não, passa longe de minha vontade me refugiar em uma fazenda ou coisa do tipo e filosofar em contato com a natureza. O caos já está por demais inserido em mim para que isso me fosse fonte de prazer. O desejo de estradas se faz pela possibilidade de novos rostos e paisagens a serem descobertas junto a elas. Firmar ou fazer amizades e, é claro, retocar ou conhecer novos belos corpos.
Eu quero os bancos de espera das rodoviárias ou aeroportos. A tensão de ter que chegar no horário certo para não perder o embarque. A satisfação de encontrar amigos e viajar em assentos próximos, tendo prazerosas conversas intervaladas por prazerosos cochilos. Acordar, trocar o disco no discman, olhar para o lado e se admirar com os belos vales, montanhas e andarilhos. Lutar um pouco mais contra o sono em troca de poder capturar através de lentes sobrepostas a chegada do astro-rei a esta estrada entre duas cidades que você não sabe os nomes. Comemorar e comentar com o parceiro do lado ao ver duas belas garotas embarcarem no meio do caminho, mesmo elas sentando distantes e parecerem não ter sequer te percebido. Dormir novamente e ser desperto por uma criança chorando no banco da frente. Se informar sobre onde está e se alegrar por saber que apenas 20 ou 30 minutos te separam do seu destino.
Ter nos sorrisos e abraços que explodem te recebendo, a recompensa por qualquer gasto ou desgaste dispensado para estar ali. Ou mesmo perceber nos rostos e paisagens ainda estranhos a renovação de suas vontades, do ‘nitimur in vetitum’ constante. Lembrar de Kerouac, de um carnaval passado, invadir novas vidas e roubar mais momentos vividos pra eternidade de sua memória. Porque isso ninguém poderá te roubar e as estradas podem te dar: algo pra lembrar.