Friday, March 06, 2009

"Porque quando o sol subir, tudo chega e a paz acaba..."



O significado mais pertinente ao nome de seu ofício é “aquele que escreve com a luz”, mas é justamente quando esta se mostra mais escassa que L. sente sua mente ordenando mais vida, mais atividade, vontades e idéias, em lugar de apenas sono. “É perda de tempo demais! Só tenho uma vida, o que já é muito pouco, e meu corpo ainda me obriga a gastar um terço dela sobre um colchão (como diz a propaganda da Ortobom)!”, indignou-se uma noite dessas, numa conversa entre amigos. Não é que lhe incomode o sol e sua força cada vez maior, mas a noite lhe é muito mais inspiradora. É quando a maioria das pessoas só pensa (por vontade ou necessidade) em despencar em suas respectivas camas, que L. arrisca perder mais alguns minutos ou horas de sono em troca de produção. É produzindo que se sente mais vivo e sabe que é nesse período em que produz melhor. Só não confunda a produção aqui citada com aquela que seu chefe te cobra ao fim de cada mês, ok?!
Na madrugada não há engarrafamentos. Depois da 23 horas, até mesmo dirigir pode lhe ser prazeroso. Não há o barulho excessivo de motores e buzinas, o que permite que se ouça melhor as músicas nos headphones. Até os programas de TV são menos deprimentes nas madrugadas! Me desculpe, sol, mas foi quando você estava do outro lado do mundo que a noite aproveitou para presentear L. com as melhores letras, textos, conversas, músicas, transas, filmes, porres e livros. O silêncio na rua se dá muito bem com o barulho do ventilador e dos alto-falantes do microsystem sempre cumprindo seu indispensável papel de manter a qualidade da trilha sonora das atividades de L..
Lhe seria prazeroso uma boa companhia agora, seja para falar sobre o disco novo do Dead Fish, cozinhar ou assistir aquele filme pela terceira vez. Mas, na noite, até mesmo a solidão lhe traz felicidade.
Se desprende do relógio que lhe lembra do horário das cobranças que o dia seguinte trará e abre espaço para um turbilhão de vontades. Chega a lhe causar certa aflição. Precisa viajar, rever certas pessoas... Alguns minutos atrás um amigo lhe falou que algumas companhias aéreas reduziram o preço de suas passagens, lhe causando euforia com a idéia de poder matar saudades e conhecer mais pessoas, lugares e momentos. Mais marcas pra sua vida. Mais noites mal dormidas e bem vividas, como esta mesmo, em que sonha sem adormecer, pensando nas possibilidades que os próximos dias lhe trarão. Precisa fazer mais uma banda, voltar a escrever, dar um abraço na mãe na manhã seguinte, terminar Crime e Castigo, quebrar aquele filadaputa no pau, dançar, falar aquela parada pra ela e ir à praia.
Radiohead no playlist. Há alguns meses essa é sempre a trilha por volta das 1h. Desliga o monitor e se deita. O redemoinho formado em sua mente não permite que os olhos se fechem. O pensamento ainda está nas possibilidades, mas desta vez nas que os dias passados lhe trouxeram e, como demasiadamente humano que é, abraçou-as. Junto à posterior sensação ruim de não ter vivido ao máximo, vem a apaziguadora esperança das voltas: as que o mundo dá e as que damos por ele. Pela janela, aos olhos resta um pedaço de céu, apertado entre prédios. Vê as nuvens firmes, não parecem se mover, nem desabam. “Puta que pariu! Calor insuportável o desses dias!”. O ventilador no máximo parece produzir mais barulho que vento. L. duvida quase que convictamente que alguma das pessoas que passeiam pelos seus pensamentos naquele momento tenha uma recíproca pra lhe oferecer e, na verdade, já não sabe se isso tem mesmo tanta importância. Lembra do demasiadamente humano? Justamente por saber que o é, sabe também que não é o único.
Suas ansiedades são amenizadas pelo silêncio das ruas vazias e a luz amarela de seus postes. Sente que os seus estão seguros e o que ainda não veio tem sua hora. Isso é o que mais importa. Na noite ele não tem patrão, não tem ônibus cheio, nem prova de concurso. Contas? Só as de bar.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

fala man...
texto bala
semana passada escrevi algo sobre a madrugada tb, coincidencia
da uma sacada lá depois
vo ler o resto do blog
não desista heim
abraços e venha tirar umas fotos de vix e dividir as contas de bares :)

9:24 PM  
Blogger garota do jornal said...

Pior é quem nem museu tem!

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Que texto perfeitoo! Me vi aí, na moral. É totalmente isso! Parabéns, cara! Não abandone, não.

9:02 AM  
Anonymous Anonymous said...

Fernando, ótimos textos, acabei de ler ao lado de Túlio, desceu suave como margarina em pão quente.

Vou acompanhar.

Abraços
(estou em Salvador)
ps: Pedro Cätärro

12:17 PM  

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