estrela
Àquela altura, a mesma medida em que renascia a cada dia os lamentos à sua volta se mostravam cada vez mais insuportáveis de serem ouvidos. E como ele odiava aquelas frases de falso niilismo barato! Tão banal nos que se acostumam ao glamour da dor, às 'músicas tristes', céus cinzas e livros de auto-ajuda. Sim, talvez houvesse naquela impaciência um tanto de egoísmo, mas era certo que não era apenas isso. Não, não o era. Ele tentava de todas as formas mostrar-lhe parte do mundo real que ela insistia em rejeitar em troca do seu 'surreal'. E como ele passou a odiar essa palavra! Ah! Que se fodesse aquela melancolia, auto-piedade e pessoas mal-amadas. Quando de face ao chão ele clamava no seu silêncio por alguma mão que o auxiliasse. Mas aprendeu a tempo que era somente sobre suas pernas estilhaçadas pela queda que ele deveria e poderia se reerguer. E assim foi e é a cada dia. As mãos alheias podem até se estender e ele reconhece que muitos tentam, mas só ele sabe de onde vem e onde está.
Já se fazia janeiro novamente e ouvir "preciso esquecer", "quero apagar"...lhe soava áspero como música pop norte-americana que tenta se disfarçar de hip-hop. Naquele fim de tarde encontrou Luiza na mesma tão conhecida e frequentada por ambos em outros tempos. Haviam convivido no colégio durante 3 anos e há alguns meses não se viam. Por algumas horas ambos se deixaram levar pelo prazer que lhes despertava a nostálgica conversa. Algumas coisas permaneciam as mesmas e, entre elas, o sorriso de Luiza que permanecia com o mesmo encanto e brilho e o seu jeito de olhar do qual ele se esquivava como do maior inimigo. Foi levado até onde sua auto-defesa deixou até que, levados pela comparação da rotina cansativa e corrida de então contra a tranquila e esperançosa de outrora, chegaram à relação morta, como a folha seca que seu tênis esmagava no chão, donde de forma laguma sairia mais algum fruto. Ela lamentou a perda, assumiu se arrepender e derramou algumas lágrimas ao confessar imaginar frequentemente como estariam seus dias se não tivesse mudado o rumo da compartilhada história. Tempo era o que ele menos podia perder naquela época. Sempre tinha os dias preenchidos e suas madrugadas encontravam um corpo cansado demais pra que pudesse voltar a ter o sono roubado por nostalgias que já lhe eram por demais conhecidas. A despeito do sorriso e olhar, Luiza não era mais a mesma pessoa, nem tampouco ele. O afeto ainda existia e talvez existisse enquanto houvesse sangue pulsando em algum dos dois, mas a noite já havia chegado e com ela a proximidade da hora marcada para alguns goles com os amigos.

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