Os movimentos haviam cessado e as vozes despediram-se. Para espantar o tédio e a perda de tempo, catou as chaves, algum dinheiro e o discman. Tecla play no disco do Simples, bate a porta e sai, andando sem muito objetivo, por aquelas tão conhecidas ruas, que percorre desde sua infância: ‘nascido e criado’. Pelo caminho apenas algumas possibilidades. Gostava das luzes amarelas, dos faróis dos carros e dos sons noturnos. Observava os tipos típicos dos bairros populares de sua cidade: a cor da pele, os tipos de roupa, o jeito de falar, de gargalhar, de andar. Uns cambaleavam entorpecidos, outros se cumprimentavam alegres e, vez por outra, alguns belos corpos presenteavam sua visão. Uma das vantagens de viver nesses tipos de lugar é a movimentação quase sempre intensa. As ruas convidam as pessoas. Nela, se esbarrem, se envolvem, se brindam ou se matam.Riu do que havia se passado algumas horas antes, quando ela havia preferido controlar suas vontades e impulsos em favor de uma relação segura e sem graça. Não era questão de julga-la certa ou errada. Ria apenas porque havia abdicado daquilo tudo. Ver a maioria dos amigos enamorados e alguns até casados o deixava feliz. Mas ali não era sua vez de voltar a viver algo do tipo. E não o era simplesmente porque ele não queria. Por muito tempo esse havia sido o seu maior alvo. Tempo o bastante para agora se sentir incrivelmente bem com a forma descarada com que vai levando os seus dias. E não pedia compreensão a quem quer que fosse. Só ele sabia até onde havia chegado. Tecla stop pra poder ouvir a voz de alguns amigos que cruzam o caminho. E ali se foram conversas, muitos sorrisos e alguns goles até mais de 3 horas de um novo dia seguinte. A campainha o desperta e alguns minutos depois ela o surpreende à porta. Cheia de sorrisos, palavras saindo freneticamente e alguma maquiagem. As conversas esbarram nos calos formados que ele carrega consigo. Os olhares não têm mais o mesmo poder. Nem mesmo quando a mão dela distraidamente busca a sua, como quem não percebe a intensidade a qual um dia foi capaz de despertar. Ele sabe o quanto lhe custaram caro os sorrisos que hoje é capaz de distribuir a quem lhes merece. E realmente não tem a menor disposição de perdê-los. Ela se despede. Com algumas palavras confusas proferidas sem descanso. Confusas e intensas, mas ditas com aquela mesma simplicidade que lhe é característica e que, por vezes, o faz reconhece-la novamente em sua essência. Seja no olhar triste e forte, seja na mania de andar rápido ou no cheiro. Mas um “bom vivan jamais mostra o ponto fraco”. E num fim de domingo ele reconhece nas sobras e na bagunça da casa indícios do seu castelo reerguido. Senhor e servo das próprias vontades. Sem tempo pra ficar pensando em crise. Preenchendo-se dos sopros que passam pelos seus dias. Play na voz da Bjork e que venha o sono dos justos.
Tuesday, October 24, 2006
Os movimentos haviam cessado e as vozes despediram-se. Para espantar o tédio e a perda de tempo, catou as chaves, algum dinheiro e o discman. Tecla play no disco do Simples, bate a porta e sai, andando sem muito objetivo, por aquelas tão conhecidas ruas, que percorre desde sua infância: ‘nascido e criado’. Pelo caminho apenas algumas possibilidades. Gostava das luzes amarelas, dos faróis dos carros e dos sons noturnos. Observava os tipos típicos dos bairros populares de sua cidade: a cor da pele, os tipos de roupa, o jeito de falar, de gargalhar, de andar. Uns cambaleavam entorpecidos, outros se cumprimentavam alegres e, vez por outra, alguns belos corpos presenteavam sua visão. Uma das vantagens de viver nesses tipos de lugar é a movimentação quase sempre intensa. As ruas convidam as pessoas. Nela, se esbarrem, se envolvem, se brindam ou se matam.Riu do que havia se passado algumas horas antes, quando ela havia preferido controlar suas vontades e impulsos em favor de uma relação segura e sem graça. Não era questão de julga-la certa ou errada. Ria apenas porque havia abdicado daquilo tudo. Ver a maioria dos amigos enamorados e alguns até casados o deixava feliz. Mas ali não era sua vez de voltar a viver algo do tipo. E não o era simplesmente porque ele não queria. Por muito tempo esse havia sido o seu maior alvo. Tempo o bastante para agora se sentir incrivelmente bem com a forma descarada com que vai levando os seus dias. E não pedia compreensão a quem quer que fosse. Só ele sabia até onde havia chegado. Tecla stop pra poder ouvir a voz de alguns amigos que cruzam o caminho. E ali se foram conversas, muitos sorrisos e alguns goles até mais de 3 horas de um novo dia seguinte. A campainha o desperta e alguns minutos depois ela o surpreende à porta. Cheia de sorrisos, palavras saindo freneticamente e alguma maquiagem. As conversas esbarram nos calos formados que ele carrega consigo. Os olhares não têm mais o mesmo poder. Nem mesmo quando a mão dela distraidamente busca a sua, como quem não percebe a intensidade a qual um dia foi capaz de despertar. Ele sabe o quanto lhe custaram caro os sorrisos que hoje é capaz de distribuir a quem lhes merece. E realmente não tem a menor disposição de perdê-los. Ela se despede. Com algumas palavras confusas proferidas sem descanso. Confusas e intensas, mas ditas com aquela mesma simplicidade que lhe é característica e que, por vezes, o faz reconhece-la novamente em sua essência. Seja no olhar triste e forte, seja na mania de andar rápido ou no cheiro. Mas um “bom vivan jamais mostra o ponto fraco”. E num fim de domingo ele reconhece nas sobras e na bagunça da casa indícios do seu castelo reerguido. Senhor e servo das próprias vontades. Sem tempo pra ficar pensando em crise. Preenchendo-se dos sopros que passam pelos seus dias. Play na voz da Bjork e que venha o sono dos justos.

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