Queria fotografar cada grão, cada olhar. E tinha que ser com muito desfoque, tipo abertura 1.2, não só pela estética mas porque era assim que eu me sentia perto dela, nitidamente só via os grãos, o jeito de olhar, os belos e grandes olhos, a timidez encantadoramente charmosa, a baixa estatura... Era covardia demais comigo, não tinha como eu não querer mais! Assim como não tinha como, mais cedo ou mais tarde, não dar merda.
Tuesday, September 18, 2012
Queria fotografar cada grão, cada olhar. E tinha que ser com muito desfoque, tipo abertura 1.2, não só pela estética mas porque era assim que eu me sentia perto dela, nitidamente só via os grãos, o jeito de olhar, os belos e grandes olhos, a timidez encantadoramente charmosa, a baixa estatura... Era covardia demais comigo, não tinha como eu não querer mais! Assim como não tinha como, mais cedo ou mais tarde, não dar merda.
Friday, March 06, 2009
"Porque quando o sol subir, tudo chega e a paz acaba..."
Na madrugada não há engarrafamentos. Depois da 23 horas, até mesmo dirigir pode lhe ser prazeroso. Não há o barulho excessivo de motores e buzinas, o que permite que se ouça melhor as músicas nos headphones. Até os programas de TV são menos deprimentes nas madrugadas! Me desculpe, sol, mas foi quando você estava do outro lado do mundo que a noite aproveitou para presentear L. com as melhores letras, textos, conversas, músicas, transas, filmes, porres e livros. O silêncio na rua se dá muito bem com o barulho do ventilador e dos alto-falantes do microsystem sempre cumprindo seu indispensável papel de manter a qualidade da trilha sonora das atividades de L..
Lhe seria prazeroso uma boa companhia agora, seja para falar sobre o disco novo do Dead Fish, cozinhar ou assistir aquele filme pela terceira vez. Mas, na noite, até mesmo a solidão lhe traz felicidade.
Se desprende do relógio que lhe lembra do horário das cobranças que o dia seguinte trará e abre espaço para um turbilhão de vontades. Chega a lhe causar certa aflição. Precisa viajar, rever certas pessoas... Alguns minutos atrás um amigo lhe falou que algumas companhias aéreas reduziram o preço de suas passagens, lhe causando euforia com a idéia de poder matar saudades e conhecer mais pessoas, lugares e momentos. Mais marcas pra sua vida. Mais noites mal dormidas e bem vividas, como esta mesmo, em que sonha sem adormecer, pensando nas possibilidades que os próximos dias lhe trarão. Precisa fazer mais uma banda, voltar a escrever, dar um abraço na mãe na manhã seguinte, terminar Crime e Castigo, quebrar aquele filadaputa no pau, dançar, falar aquela parada pra ela e ir à praia.
Radiohead no playlist. Há alguns meses essa é sempre a trilha por volta das 1h. Desliga o monitor e se deita. O redemoinho formado em sua mente não permite que os olhos se fechem. O pensamento ainda está nas possibilidades, mas desta vez nas que os dias passados lhe trouxeram e, como demasiadamente humano que é, abraçou-as. Junto à posterior sensação ruim de não ter vivido ao máximo, vem a apaziguadora esperança das voltas: as que o mundo dá e as que damos por ele. Pela janela, aos olhos resta um pedaço de céu, apertado entre prédios. Vê as nuvens firmes, não parecem se mover, nem desabam. “Puta que pariu! Calor insuportável o desses dias!”. O ventilador no máximo parece produzir mais barulho que vento. L. duvida quase que convictamente que alguma das pessoas que passeiam pelos seus pensamentos naquele momento tenha uma recíproca pra lhe oferecer e, na verdade, já não sabe se isso tem mesmo tanta importância. Lembra do demasiadamente humano? Justamente por saber que o é, sabe também que não é o único.
Suas ansiedades são amenizadas pelo silêncio das ruas vazias e a luz amarela de seus postes. Sente que os seus estão seguros e o que ainda não veio tem sua hora. Isso é o que mais importa. Na noite ele não tem patrão, não tem ônibus cheio, nem prova de concurso. Contas? Só as de bar.
Wednesday, July 30, 2008
afirmação da vida
Não é papo de nostalgia, não! Nem mesmo aquelas conversas de saudade de infância, adolescência ou qualquer coisa perdida. Sim, o tempo de colégio foi a melhor época de minha vida, isso eu não posso negar! Mas não é a nenhum lamento que me refiro quando digo que apenas queria poder estar tendo essa conversa com o E. aqui na rua ou naquele bar perto da casa dele. Eu acho do caralho a risada dele e isso a tecnologia ainda não é capaz de me trazer nem tampouco de diminuir os milhares de quilômetros e necessidades trazidas pela idade que nos separam agora. A distância geográfica já não te assusta tanto, né! A mim o causa espanto é que já não me espanto com a distância afetiva que algumas pessoas e até mesmo ‘coisas’ adquiriram de uns anos pra cá.
Na real, poucas coisas vindas das pessoas ainda me assustam. Também são poucas as que me encantam, mas estas parecem se tornar ainda mais intensas, mesmo que escassas.
Muita coisa mudou. Minha banda acabou, aquele amigo que eu considerava como irmão agora torço pra não ver mais a cara e, da mulher da minha vida de alguns anos atrás, não tenho notícias há quase um ano.
Muita coisa mudou. Eu mudei muito. Já tenho outra banda, tenho meu irmão mais novo como grande amigo e falo quase todos os dias com a mulher da minha vida destes últimos meses.
Minha paixão pela música é sempre maior que o máximo de bandas que eu possa ter, ainda tenho alguns possíveis irmãos pra manter e conhecer e, possivelmente, ainda haverão mais mulheres da minha vida pelo caminho. Afinal, vida não se resume a velhice nem tampouco aos tempos de colégio.
Thursday, December 27, 2007
ser mais
Errou e sofreu as conseqüências. As escolhas foram suas, os atos foram seus, as noites não dormidas e os sonos compartilhados também. E ele sempre soube que, no dia que viesse, da dor da queda ele também seria dono. Mas ela veio mais sutil do que o que muitos (inclusive ele) previam, ou talvez os açoites tenham fortalecido sua face.
As segundas-feiras traziam também a falta dos dois dias anteriores que lhe pareciam as ressacas que, por sorte, ele nunca teve. Brindava o despertar mais tarde (apesar do adormecer muito mais tarde), a possibilidade de escolher com calma a trilha com a qual começaria enfrentar o dia, a chegada no quintal de casa pra conferir se o astro-rei imperava, os telefonemas "qual vai ser" e as conversas regadas a goles gelados e música boa em locais nada sofisticados.
No final da sexta ele ria lembrando e comentando na mesa sobre o palestrante com suas frases gastas de auto-ajuda e seu público cochilando, aplaudindo e perdendo a noção do ridículo em dinâmicas como "o abraço do elefante", onde o gerente aproveita pra se roçar na secretária e dar um prévia do que não vai conseguir fazer após o expediente. O protótipo de gravata à frente daquelas cerca de 80 pessoas é patético, mas pelo menos o filho da puta tira uma grana boa pra fazer aquilo. O que ele não consegue entender é como as cerca de 80 pessoas ali se prestam aquilo ali sendo que o salário já tá na conta e são empregadas numa estatal e, por isso, o risco de perderem o emprego é quase nenhum. É o sub-gerente que quer chegar a gerente nem tanto pelo dinheiro, mas simplesmente pelo poder, pela massagem no ego que os aplausos nos auditórios da companhia irão lhe trazer.
Ele dizia sim ao mundo hostil das testas franzidas nos ônibus, garotas que traem, patrões de ego inflado, engarrafamentos, sexo por sexo (e nada mais) e prédios pichados. Era uma espécie de "querem briga, façam fila" como ele nunca havia tido coragem de dizer na infância.
Algo foi perdido. Talvez na escada em que descia para o ponto de ônibus próximo da casa dela, talvez na ladeira que lhe levava ao colégio, na praça da orla, no setor de RH ou ainda no quarto enfumaçado do amigo nada pródigo. Mas à hostilidade que estes lugares lhe ofereciam hoje, ele não estava disposto a dizer sim.
Thursday, August 09, 2007
vertigem [pt 2]
Seu ombro está umedecido pelas lágrimas de Sara. Abraçam-se como se fossem um ao outro o único porto seguro, o único refúgio. Como se quisessem com aquele abraço se esconderem um no outro das várias neuroses que os perseguem. Como se seus corpos fossem o lugar seguro que lhes restava naquela ilha. Não é a primeira vez que se buscam dessa forma, mas agora está nítido: é a última; o que torna a cena apaixonadamente desesperadora.
A campainha toca. Ele não se move. “Pode ir atender...”. Ele não se move. É como se não tivesse nenhuma importância que o mundo do lado de fora daquelas paredes queimasse. Era mais uma tentativa que fora frustrada e não era só mais uma, como na maioria das vezes. Chegaram ao limite. Já estava claro que, a partir dali, seria somente tempo morto, discussões estéreis e neuroses anulando os momentos de prazer, boas conversas e inesquecíveis sonos compartilhados. Que preencheram os fugazes dias em que estiveram mais que juntos. Os corpos e almas se misturavam impulsionados pela recíproca vontade que imperava nos encontros. Não precisaram de muito tempo pra se marcar na vida um do outro. Apenas chegaram, munidos de frustrações e esperanças e puseram as cinzas novamente em chamas. O medo que Sara revelou-lhe logo nos primeiros dias agora se confirmava talvez justamente pela sua precoce existência. Foi tudo intenso demais e, consequentemente ou não, veloz demais. O momento que ele há alguns dias havia previsto chegara. E agora sabia tanto para onde ir quanto como se nunca tivesse imaginado que aquela cena pudesse acontecer.
Nem sempre encarar desafios é se arriscar a fazer algo. As vezes não se arriscar ou deixar de fazer algo é o que se revela mais difícil.
Apenas sentimento já não era o bastante. Teria a vontade todo esse poder a ponto de lhes fazer fechar os olhos para todas as adversidades que lhes acompanhavam?
Sara nunca se interessou pelos escritos, fotografias e discos dele. Ele nunca foi simpático às amizades dela. Por mais que quisessem, o mundo do lado de lá daquelas paredes não deixava de existir quando seus corpos se abraçavam.
E talvez um dia esse mesmos corpos se encontrem num desses acasos que os dias chatos e aparentemente sem surpresas nos trazem, e rezam para que não apenas se cumprimentem com a aparente e ridícula frieza de quem tenta demonstrar indiferença quando o pulso acelera.
img > Wagner Ramos s/s heelflip
Tuesday, July 03, 2007
fuga do vale de lágrimas
Em meio a tantas intrigas, J. lembra de Belchior e de que "amar e mudar as coisas lhe interessa mais". Os refúgios são sempre perigosos. Um dia você acorda e não reconhece o abrigo onde dormiu por tanto tempo. O porteiro não responde à sua saudação, a janela lhe revela uma paisagem inversá à noite anterior e e as lâmpadas não se acendem. No meio de toda sua podridão, J. sempre prezou por manter a sobrevivência de sua sinceridade, odiava os "leva e traz", as revistas de fofoca, os cochichos e as vizinhas que não têm o que fazer. Preferia que lhe esmurrassem a face a falarem de seus dias, que ele tanto resguardava para justamente não dar espaço aos dedos alheios, sempre pronto p/ se enrigecerem na direção do primeiro que passasse à frente.
Surpreendia-se com a forma que estava reagindo aos açoites diários. Nenhuma inconveniente lágrima ousava chegar perto de suas pálpebras, pior ainda era se houvessem olhos alheios nas proximidades. Não era frieza. Dessa vez era força, adquirida de forma semelhante a dos corpos dos escravos que, há séculos atrás, adquiriram para, ainda hoje, a resistência pulsar na pele de seu povo. Suas noites de pouco sono, os insultos e descasos, os olhares desviados. Das partidas sempre ficará a sensação de que algo ficou pela metade e J. sabe que sempre terá algo que poderá lhe prender e não lhe deixar queimar o ontem, sempre pensando no que não deu tempo de fazer. Não importa! Ele não quer mais um elo na corrente que prende seus pés.
Ele pensa na utilidade que as derrotas podem ter quando se assimila a idéia de que elas são inevitáveis. Quando se aprende a rir dos heróis e dos vitoriosos. Quando o modelo do jovem de 23 anos de carreira altamente promissora não é o que se deseja quando ele tem exatamente 23 e ainda ama passar noites rindo de um punhado de bobagens com seu irmão mais novo. As luzes amarelas das ruas vazias lhe atraem muito mais que os corredores dos prédios empresariais, os auditórios onde os gerentes têm seus minutos, por vezes horas, para desfrutar do banquete de sorrisos plásticos e balançares de cabeça de imbecil aprovação. Ele tem um frio desdém sempre pronto para os que anunciam suas grandes mudanças radicais. Os novos homens e novas mulheres que surgem da noite pro dia, após se frustrarem com a "mudança da noite pro dia" da tarde anterior. "Você vai continuar a mesma coisa. Enquanto não tirar essa máscara e assumir os demônios e fracassos que habitam em você, nada vai mudar", ele havia dito alguns dias atrás à coitada que, aos 20 anos, estava mais morta do que perdida.
Ele não usa nenhum tipo de proteção quando a cidade desaba em chuvas. Caminha sempre depressa, mesmo quando não há um destino certo. A sensação de perda de tempo agora o faz rejeitar os abrigos. Enfrenta chuvas ou quaisquer fúrias naturais. Ele sabe que elas são inevitáveis e que o período de estiagem virá, onde ele aparecerá junto com o astro-rei, com a alma lavada e cinzas nos pés.
Tuesday, May 22, 2007
vertigem
Cerca de uma semana atrás Sara tinha lhe tomado a gota de energia que lhe sobrava após uma terça-feira de muita fadiga e nenhuma dança. Sua inflamada vontade contrastava a cada dia mais com o já característico medo que ela carregava. Ele odiava tanta covardia, mas chegava a compreender a sua (?) escolha. Não tinha muito a oferecer a Sara. Presenteava a ela apenas com suas desilusões, que lhe tornavam cada dia mais vivo e áspero, e um sentimento que nada tinha de suave e muito tinha de pureza e tornados. Ele sabia o quanto aquilo poderia lhe custar. Durante todo o tempo lembrava-se que mesmo não estando à venda, o que sentia não era e jamais seria barato. Mas talvez isso já não fosse o bastante. Ele não conseguia pôr em prática as ‘soluções’ para as suas neuroses. O que dirá receitar remédios para as dela.
O emagrecimento dos últimos meses não havia conseguido roubar a imensa beleza que brilhava no corpo de Sara aos olhos dele. Descobria e se apaixonava a cada dia mais pelos seus detalhes que se revelavam tímida e vagarosamente, como o sinal que se deixou perceber no pescoço quando ela ajeitava os cabelos em uma das noites em que, juntos, não dormiram. Amava vê-la com a aparência desleixada, vestida com roupas simples, maquiagem borrada
