Tuesday, July 03, 2007

fuga do vale de lágrimas


Em meio a tantas intrigas, J. lembra de Belchior e de que "amar e mudar as coisas lhe interessa mais". Os refúgios são sempre perigosos. Um dia você acorda e não reconhece o abrigo onde dormiu por tanto tempo. O porteiro não responde à sua saudação, a janela lhe revela uma paisagem inversá à noite anterior e e as lâmpadas não se acendem. No meio de toda sua podridão, J. sempre prezou por manter a sobrevivência de sua sinceridade, odiava os "leva e traz", as revistas de fofoca, os cochichos e as vizinhas que não têm o que fazer. Preferia que lhe esmurrassem a face a falarem de seus dias, que ele tanto resguardava para justamente não dar espaço aos dedos alheios, sempre pronto p/ se enrigecerem na direção do primeiro que passasse à frente.

Surpreendia-se com a forma que estava reagindo aos açoites diários. Nenhuma inconveniente lágrima ousava chegar perto de suas pálpebras, pior ainda era se houvessem olhos alheios nas proximidades. Não era frieza. Dessa vez era força, adquirida de forma semelhante a dos corpos dos escravos que, há séculos atrás, adquiriram para, ainda hoje, a resistência pulsar na pele de seu povo. Suas noites de pouco sono, os insultos e descasos, os olhares desviados. Das partidas sempre ficará a sensação de que algo ficou pela metade e J. sabe que sempre terá algo que poderá lhe prender e não lhe deixar queimar o ontem, sempre pensando no que não deu tempo de fazer. Não importa! Ele não quer mais um elo na corrente que prende seus pés.

Ele pensa na utilidade que as derrotas podem ter quando se assimila a idéia de que elas são inevitáveis. Quando se aprende a rir dos heróis e dos vitoriosos. Quando o modelo do jovem de 23 anos de carreira altamente promissora não é o que se deseja quando ele tem exatamente 23 e ainda ama passar noites rindo de um punhado de bobagens com seu irmão mais novo. As luzes amarelas das ruas vazias lhe atraem muito mais que os corredores dos prédios empresariais, os auditórios onde os gerentes têm seus minutos, por vezes horas, para desfrutar do banquete de sorrisos plásticos e balançares de cabeça de imbecil aprovação. Ele tem um frio desdém sempre pronto para os que anunciam suas grandes mudanças radicais. Os novos homens e novas mulheres que surgem da noite pro dia, após se frustrarem com a "mudança da noite pro dia" da tarde anterior. "Você vai continuar a mesma coisa. Enquanto não tirar essa máscara e assumir os demônios e fracassos que habitam em você, nada vai mudar", ele havia dito alguns dias atrás à coitada que, aos 20 anos, estava mais morta do que perdida.

Ele não usa nenhum tipo de proteção quando a cidade desaba em chuvas. Caminha sempre depressa, mesmo quando não há um destino certo. A sensação de perda de tempo agora o faz rejeitar os abrigos. Enfrenta chuvas ou quaisquer fúrias naturais. Ele sabe que elas são inevitáveis e que o período de estiagem virá, onde ele aparecerá junto com o astro-rei, com a alma lavada e cinzas nos pés.