Tuesday, May 22, 2007

vertigem


“Antes a misantropia que a auto-piedade”. Foi seu primeiro pensamento ao sair do local de realização do mal sucedido exame acadêmico. Era uma noite atípica em sua cidade. O clima, quase sempre insuportavelmente quente, agora lhe impunha uma chuva torrencial e um céu de estrelas escondidas atrás de nuvens densas. Com seu corpo ele rasgava o vento frio naquela avenida se inúmeros automóveis e raros pés. A música no headphone era a trilha perfeita para o turbilhão de sensações que explodiam dentro dele: acordes e urros os mais violentos possíveis eram cuspidos nos seus tímpanos sem dar espaço a possíveis sentimentalismos. Estava no sexto período e a incerteza lhe parecia ter sido adicionada à grade de matérias nas quais ele precisava ser aprovado. Sua paciência se tornava então tão abundante quanto o seu tempo, o algoz maior.

Cerca de uma semana atrás Sara tinha lhe tomado a gota de energia que lhe sobrava após uma terça-feira de muita fadiga e nenhuma dança. Sua inflamada vontade contrastava a cada dia mais com o já característico medo que ela carregava. Ele odiava tanta covardia, mas chegava a compreender a sua (?) escolha. Não tinha muito a oferecer a Sara. Presenteava a ela apenas com suas desilusões, que lhe tornavam cada dia mais vivo e áspero, e um sentimento que nada tinha de suave e muito tinha de pureza e tornados. Ele sabia o quanto aquilo poderia lhe custar. Durante todo o tempo lembrava-se que mesmo não estando à venda, o que sentia não era e jamais seria barato. Mas talvez isso já não fosse o bastante. Ele não conseguia pôr em prática as ‘soluções’ para as suas neuroses. O que dirá receitar remédios para as dela.

O emagrecimento dos últimos meses não havia conseguido roubar a imensa beleza que brilhava no corpo de Sara aos olhos dele. Descobria e se apaixonava a cada dia mais pelos seus detalhes que se revelavam tímida e vagarosamente, como o sinal que se deixou perceber no pescoço quando ela ajeitava os cabelos em uma das noites em que, juntos, não dormiram. Amava vê-la com a aparência desleixada, vestida com roupas simples, maquiagem borrada

(continua...(talvez))



Thursday, May 03, 2007

estrela


Àquela altura, a mesma medida em que renascia a cada dia os lamentos à sua volta se mostravam cada vez mais insuportáveis de serem ouvidos. E como ele odiava aquelas frases de falso niilismo barato! Tão banal nos que se acostumam ao glamour da dor, às 'músicas tristes', céus cinzas e livros de auto-ajuda. Sim, talvez houvesse naquela impaciência um tanto de egoísmo, mas era certo que não era apenas isso. Não, não o era. Ele tentava de todas as formas mostrar-lhe parte do mundo real que ela insistia em rejeitar em troca do seu 'surreal'. E como ele passou a odiar essa palavra! Ah! Que se fodesse aquela melancolia, auto-piedade e pessoas mal-amadas. Quando de face ao chão ele clamava no seu silêncio por alguma mão que o auxiliasse. Mas aprendeu a tempo que era somente sobre suas pernas estilhaçadas pela queda que ele deveria e poderia se reerguer. E assim foi e é a cada dia. As mãos alheias podem até se estender e ele reconhece que muitos tentam, mas só ele sabe de onde vem e onde está.


Já se fazia janeiro novamente e ouvir "preciso esquecer", "quero apagar"...lhe soava áspero como música pop norte-americana que tenta se disfarçar de hip-hop. Naquele fim de tarde encontrou Luiza na mesma tão conhecida e frequentada por ambos em outros tempos. Haviam convivido no colégio durante 3 anos e há alguns meses não se viam. Por algumas horas ambos se deixaram levar pelo prazer que lhes despertava a nostálgica conversa. Algumas coisas permaneciam as mesmas e, entre elas, o sorriso de Luiza que permanecia com o mesmo encanto e brilho e o seu jeito de olhar do qual ele se esquivava como do maior inimigo. Foi levado até onde sua auto-defesa deixou até que, levados pela comparação da rotina cansativa e corrida de então contra a tranquila e esperançosa de outrora, chegaram à relação morta, como a folha seca que seu tênis esmagava no chão, donde de forma laguma sairia mais algum fruto. Ela lamentou a perda, assumiu se arrepender e derramou algumas lágrimas ao confessar imaginar frequentemente como estariam seus dias se não tivesse mudado o rumo da compartilhada história. Tempo era o que ele menos podia perder naquela época. Sempre tinha os dias preenchidos e suas madrugadas encontravam um corpo cansado demais pra que pudesse voltar a ter o sono roubado por nostalgias que já lhe eram por demais conhecidas. A despeito do sorriso e olhar, Luiza não era mais a mesma pessoa, nem tampouco ele. O afeto ainda existia e talvez existisse enquanto houvesse sangue pulsando em algum dos dois, mas a noite já havia chegado e com ela a proximidade da hora marcada para alguns goles com os amigos.