Thursday, December 27, 2007

ser mais

Ele percebia a frieza e hostilidade nos olhares vazios nos ônibus. São 22h30 e essa desgraça metropolitana ainda consegue ter engarrafamentos. Eles roubavam qualquer resto de humor que lhe sobrasse no fim das segundas-feiras, que já lhe eram os piores dias da semana. Era quando parava de fazer o que queria e voltava a dedicar, no mínimo, dez horas de seu dia ao que precisava fazer. Ele burlava diariamente o contrato assinado há três anos. Tomava de volta pedaços do precioso tempo vendido, fosse nas páginas virtuais devorando textos e fotografias, fosse nos corredores e elevadores admirando os belos corpos que desfilavam naquele prédio. Indiferentes, é claro. Pois sua farda denunciava sua condição e, nelas, a prepotência no andar denunciava a rejeição. Mas nada que ofuscasse os seios fartos e a dança das saias. Afinal, era só isso que importava já que era só isso que elas tinham a oferecer. E essa realidade há muito tempo não lhe causava surpresa: “encontre uma de caráter se você puder”, ele ouviu, há mais ou menos dez anos atrás, o poeta urbano dizer numa fita k7. Nesses dez anos ele encontrou, perdeu, tentou, não achou, tentou novamente e vai tentar até... porque o mundo das tentativas lhe é prazeroso sim, mesmo com seus riscos, que ele se dispunha, tranquilamente e em atitudes quase suicidas, a correr.

Errou e sofreu as conseqüências. As escolhas foram suas, os atos foram seus, as noites não dormidas e os sonos compartilhados também. E ele sempre soube que, no dia que viesse, da dor da queda ele também seria dono. Mas ela veio mais sutil do que o que muitos (inclusive ele) previam, ou talvez os açoites tenham fortalecido sua face.

As segundas-feiras traziam também a falta dos dois dias anteriores que lhe pareciam as ressacas que, por sorte, ele nunca teve. Brindava o despertar mais tarde (apesar do adormecer muito mais tarde), a possibilidade de escolher com calma a trilha com a qual começaria enfrentar o dia, a chegada no quintal de casa pra conferir se o astro-rei imperava, os telefonemas "qual vai ser" e as conversas regadas a goles gelados e música boa em locais nada sofisticados.
No final da sexta ele ria lembrando e comentando na mesa sobre o palestrante com suas frases gastas de auto-ajuda e seu público cochilando, aplaudindo e perdendo a noção do ridículo em dinâmicas como "o abraço do elefante", onde o gerente aproveita pra se roçar na secretária e dar um prévia do que não vai conseguir fazer após o expediente. O protótipo de gravata à frente daquelas cerca de 80 pessoas é patético, mas pelo menos o filho da puta tira uma grana boa pra fazer aquilo. O que ele não consegue entender é como as cerca de 80 pessoas ali se prestam aquilo ali sendo que o salário já tá na conta e são empregadas numa estatal e, por isso, o risco de perderem o emprego é quase nenhum. É o sub-gerente que quer chegar a gerente nem tanto pelo dinheiro, mas simplesmente pelo poder, pela massagem no ego que os aplausos nos auditórios da companhia irão lhe trazer.

Ele dizia sim ao mundo hostil das testas franzidas nos ônibus, garotas que traem, patrões de ego inflado, engarrafamentos, sexo por sexo (e nada mais) e prédios pichados. Era uma espécie de "querem briga, façam fila" como ele nunca havia tido coragem de dizer na infância.

Algo foi perdido. Talvez na escada em que descia para o ponto de ônibus próximo da casa dela, talvez na ladeira que lhe levava ao colégio, na praça da orla, no setor de RH ou ainda no quarto enfumaçado do amigo nada pródigo. Mas à hostilidade que estes lugares lhe ofereciam hoje, ele não estava disposto a dizer sim.