vertigem [pt 2]
Seu ombro está umedecido pelas lágrimas de Sara. Abraçam-se como se fossem um ao outro o único porto seguro, o único refúgio. Como se quisessem com aquele abraço se esconderem um no outro das várias neuroses que os perseguem. Como se seus corpos fossem o lugar seguro que lhes restava naquela ilha. Não é a primeira vez que se buscam dessa forma, mas agora está nítido: é a última; o que torna a cena apaixonadamente desesperadora.
A campainha toca. Ele não se move. “Pode ir atender...”. Ele não se move. É como se não tivesse nenhuma importância que o mundo do lado de fora daquelas paredes queimasse. Era mais uma tentativa que fora frustrada e não era só mais uma, como na maioria das vezes. Chegaram ao limite. Já estava claro que, a partir dali, seria somente tempo morto, discussões estéreis e neuroses anulando os momentos de prazer, boas conversas e inesquecíveis sonos compartilhados. Que preencheram os fugazes dias em que estiveram mais que juntos. Os corpos e almas se misturavam impulsionados pela recíproca vontade que imperava nos encontros. Não precisaram de muito tempo pra se marcar na vida um do outro. Apenas chegaram, munidos de frustrações e esperanças e puseram as cinzas novamente em chamas. O medo que Sara revelou-lhe logo nos primeiros dias agora se confirmava talvez justamente pela sua precoce existência. Foi tudo intenso demais e, consequentemente ou não, veloz demais. O momento que ele há alguns dias havia previsto chegara. E agora sabia tanto para onde ir quanto como se nunca tivesse imaginado que aquela cena pudesse acontecer.
Nem sempre encarar desafios é se arriscar a fazer algo. As vezes não se arriscar ou deixar de fazer algo é o que se revela mais difícil.
Apenas sentimento já não era o bastante. Teria a vontade todo esse poder a ponto de lhes fazer fechar os olhos para todas as adversidades que lhes acompanhavam?
Sara nunca se interessou pelos escritos, fotografias e discos dele. Ele nunca foi simpático às amizades dela. Por mais que quisessem, o mundo do lado de lá daquelas paredes não deixava de existir quando seus corpos se abraçavam.
E talvez um dia esse mesmos corpos se encontrem num desses acasos que os dias chatos e aparentemente sem surpresas nos trazem, e rezam para que não apenas se cumprimentem com a aparente e ridícula frieza de quem tenta demonstrar indiferença quando o pulso acelera.
img > Wagner Ramos s/s heelflip

1 Comments:
Identificaçao pra mim é uma palavra complicada as vezes. Como vc já tive minhas Sarahs...Vieram como que fogo incendianto tudo em minha vida e se foram.Tento manter lembranças boas, mas sou briguento e tenho mais lembranças para as ruins.A gente ve que se aprece nessas epquenas coisas mano.Lendo e se reconhcendo num cenario e vivencias, muito longe de nós, mas que ao mesmo tempo sao muito proximas.
intenso e conciso, poucos conseguem escrever assim.
abraço!
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