As mãos estão imundas devido ao repetido contato com o chão. O que, além da sujeira, proporcionou a forte dor que inflama o punho agora. Mas ele está costumado a esse revés e um dia leu que “prazer e dor são roda e rolamento em nossas mentes” e opta por resistir e insistir um pouco mais. Para alguns ele já não tem mais idade para isso, assim como no início a maioria achava que era coisa passageira, moda de adolescente e que nem chegava a dar motivos para sua mãe se preocupar pelo moleque se meter com algo que envolve risco físico mesmo possuindo uma considerável cicatriz na cabeça. Anos se foram e o tempo venceu a preocupação dela, mas não a paixão que ainda o move até o solo digno mais próximo de sua casa mesmo no fim de um dia entupido de fadiga.
Ela ligou no final da tarde prometendo aparecer pois estava ‘morrendo de saudades’ e como sempre seus superlativos e declarações, que nunca lhe tocaram nem chegaram além do seu canal auditivo, não ultrapassaram os fios de telefone. Não cumpriu a promessa e foi tranquilamente substituída à altura por um pedaço de madeira, quatro rodas, duas bases de alumínio e alguns rolamentos e parafusos. Afinal, ele não tem todas as noites livres pra perder essa lua sentado esperando a boa vontade de alguém que não se deixa mover pelas próprias vontades. A ‘moda de adolescente’ ainda consegue lhe arrancar muitos ml’s de suor, vários sorrisos, lhe acelera os batimentos e, vez por outra, atrai pra si alguns interessantes olhares que podem sempre ser mais bem conhecidos no final da sessão.
Mesmo vendo a coisa hoje ser feita por embalo por grande parte dos que estão no meio, embalados pela série da tv, pela ‘streetwear’ ou pelo rockstar chato e obeso, é na persistência de camisas suadas, hematomas pelas pernas, gírias e músicas estranhas que ele sente sua juventude borbulhando, pedindo pra que se fodam os finais de domingo que sempre apresentam todos os motivos para serem tristes. Mas em um desses encontra os amigos e os reconhecem as pessoas mais ricas que existem no fodido planeta em que vivem. Ricos demais para perder o tempo que perdem em trabalhos auto-improdutivos, ou mesmo com garotas que preferem gastar as noites em festas de gente bonita, se auto-proclamando ‘bem felizes’ e ao mesmo entupindo os ouvidos alheios de lamentos tão superficiais quanto suas maquiagens. Eles sacam a vida(sim. Nós sacamos a vida, Sal) e quando quiserem usarão, se realmente valer a pena se deixar serem usados.
E caso ela não apareça novamente, ele sabe o quanto uma sessão pode preencher seu final de tarde.